Antes de olhar uma alegoria pronta, coberta de ouro, arabescos, candelabros, esculturas, plumas e personagens, é preciso aprender a enxergar o que existe por baixo da decoração.
Porque a decoração não cria a composição. Ela veste uma composição que já estava resolvida antes.
Foi isso que comecei a perceber ao estudar os carros alegóricos de Rosa Magalhães.
Meu primeiro rabisco não era o desenho de um carro. Era a tentativa de encontrar a sua gramática estrutural da composição — a base invisível sobre a qual diferentes alegorias podiam nascer.
No Quadro 1, aparecem as bases: vários níveis e pedestais, altos e baixos, distribuídos sobre o chassi. São os lugares onde estarão as pessoas. Isso significa que as figuras humanas não são simplesmente colocadas sobre o carro depois de pronto: elas já nascem distribuídas pela arquitetura da alegoria.
No Quadro 2, aparecem as massas geométricas: cones, cilindros, blocos, discos e grandes formas centrais encaixadas entre essas bases. Depois, esses volumes recebem a decoração e praticamente desaparecem aos nossos olhos.
O chassi curvo funciona como a linha-base que sustenta toda a composição.
A linha central forte cria o eixo monumental: a alegoria cresce em direção ao centro e vai descendo para as laterais, construindo equilíbrio, hierarquia e movimento.
Por baixo de todo o esplendor, começa a aparecer uma fórmula:
uma base + um eixo central + plataformas humanas em diferentes alturas + grandes massas geométricas intercaladas.
E aqui está a parte mais fascinante deste estudo: antes de olhar para essa recorrência como repetição ou cópia, experimente olhar para ela como uma base compositiva que recebe novas roupagens a cada ano.
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